segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Luz em meio à escuridão


Chegamos então ao século XVI. Para Lutero a justiça de Deus era essencialmente retribuitiva. E como o homem não tem nada de bom a oferecer, a justiça retribuitiva se torna a justiça punitiva. Essa ideia prevaleceu até que o grande reformador, preparando suas aulas sobre Salmos, se deparou com um apelo de Davi: “...livra-me por tua justiça” (Sl 31:1). Este texto perturbou seus pensamentos. “Como pode Deus salvar alguém na sua justiça se a justiça é exatamente o que Deus usa para punir as pessoas?”. Prosseguindo seus estudos encontrou as seguintes palavras de Paulo: “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” (Rm 1:17). Assim, finalmente Lutero chegou a correta conclusão que a justiça é redentiva. Não era apenas uma qualidade de Deus, mas um dom. Ele entendeu que justiça é aquilo que Deus oferece e não aquilo que Ele requer. Não podemos perder de vista este conceito. Esse ainda é um grande obstáculo na mente de muitas pessoas. Muitos ainda pensam que podem ser justos diante de Deus, mas nunca devemos nos esquecer que justiça é o que Deus oferece e não o que Ele requer. O termo grego dikaion, traduzido para o latim como justificare, significa considerar justo, contar como justo, imputar justiça, absolver.  Porém, o termo foi mal traduzido no latim, e isto especialmente quando o grego se tornou uma língua morta no ocidente. O significado grego se perdeu e justificare passou a significar "tornar justo". Durante todo o período medieval o significado de justiça foi entendido no sentido agostiniano, como um processo, fazer justo, tornar justo. Com a renascença aumentou o estudo da cultura clássica e, em 1506, Reuchlin publicou sua gramática hebraica. As línguas bíblicas começaram a ser redescobertas. Erasmo de Roterdam, em 1516, publicou a nova edição do Novo Testamento grego. Assim Lutero descobriu que, no grego, justificar significa "considerar justo" e não "tornar justo". Descobriu que justificação é um ato forense. "Um homem não é considerado como justo porque ele é justo, mas é justo porque é considerado como justo". Justificação para Lutero não é mais a comunicação da justiça de Deus, mas imputação da justiça de Deus. Tornar justo é uma questão forense. Se a justificação é um veredito de Deus em nosso favor, como isto acontece? Como somos declarados justos? Como Deus justifica os pecadores?  Estas questões ainda não estavam claras para Lutero quando lecionava a classe de Romanos. Não somos dignos de méritos humanos. Como Deus justifica os pecadores? Conforme seu comentário, Romanos 4:7 parece passar por alto o ato da fé em Cristo. Então, Lutero começa a associar exclusivamente a justificação com a fé em Cristo, e em escritos posteriores liga a justificação com a graça de Cristo e com a fé, e esta é a posição final de Lutero. A justificação vem pela graça de Deus. Deus manifesta sua graça por ter permitido que Cristo sofresse em nosso lugar. Ele coloca os nossos pecados não sobre nós, mas sobre Cristo. Em Isaías 53:5 é descrito que Cristo toma o lugar dos pecadores, e através da fé nEle podemos ter a Sua justiça. E prossegue: "Assumindo nosso lugar ele tomou sobre si nossa pessoa pecaminosa e agora podemos tomar sua pessoa vitoriosa". Lutero diz: "O verdadeiro caminho para o cristianismo é este, que primeiro o homem pela lei tem que reconhecer que é pecador e não pode se livrar por obras meritórias – esta é a única forma de partir o nosso eu e contemplar a humildade de Cristo". Somos justificados somente pela graça, através de Cristo. As obras são resultados da justificação. É importante salientar que a salvação pela graça não nos dá uma escusa para não praticar boas obras, mas nos dá uma motivação para praticá-las. Você não pratica obras para ser justificado, mas porque você foi justificado. A lei nunca foi dada para ser um instrumento da salvação. O amor nos diz porque fazer, a lei nos diz como fazer. Em 1994 acompanhamos o julgamento de O. J. Simpson. O ex-jogador de futebol americano foi acusado de matar sua ex-esposa, Nicole Brown, e seu amigo, Ronald Goldman. Relatos posteriores do julgamento nos dizem que nunca na história foram reunidas tantas evidências contra alguém como foram reunidas contra Simpson. No entanto, mesmo com todas as provas a favor da condenação, o juiz decretou que Simpson era inocente. Isto é uma boa ilustração do que acontece conosco nos tribunais celestes. Somos culpados. Todas as provas estão contra nós. Mas, Deus nos declara inocentes. É claro que os julgamentos humanos não podem se comparar com os julgamentos divinos. No caso de Simpson, foi um erro. Em nosso caso, Alguém pagou em nosso lugar. E, apesar de continuarmos pecadores, Deus vê um homem legalmente perdoado. Por muito tempo existiu uma confusão no pensamento cristão sobre a questão da justificação. Mas, Deus lança luz sobre o Seu povo e hoje podemos ter a certeza da nossa salvação. Não por méritos próprios, mas através dos méritos de Cristo. "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé" (Fp 3:8 e 9). Somos livres da culpa do pecado porque Cristo pagou em nosso lugar. Este é o momento de entregarmos a nossa culpa a Cristo e mediante a fé nos alegrarmos na certeza da salvação. O Inocente sofreu em seu lugar e hoje Deus te declara justo! 

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